01 de Setembro de 2009

...tem um grande significado para mim...

 

O que será que as pessoas inalam ou consomem, para serem capazes de gestos tão mórbidos e doentios como deslocarem-se centenas de quilómetros, a fim de ver o local onde ocorreu uma catástrofe?

O que fará com que as pessoas tenham um magnetismo tão intenso para com a morte, sendo para elas quase difícil de resistir a este chamamento pelo mórbido, a ponto de se mostrarem impávidas e agirem de forma natural perante as câmaras de televisão?

 

Como sabem, não se espera de mim outra coisa senão a eficiência. E por isso, recorro sempre ao melhor recurso para uma elucidação mais explícita e plena de conhecimento, ou seja, contactei uma pessoa psicótica que anda por Portugal a recolher lembranças de tragédias.

É de Guimarães e vimo-la recentemente a ser entrevistada no Algarve, mais concretamente na Praia Maria Luísa, quando se preparava para recolher um pedaço de rocha que fez cinco vítimas.

Fui a sua casa e instalei-me num confortável assento de autocarro que diz ter servido de transporte, para uma visita de estudo de uma universidade de terceira idade.

Enquanto vomito generosamente de nojo para um balde gentilmente cedido pela senhora, devido ao macabro hobbie que tem, ela narra que tudo começou aquando do acidente de aviação de Camarate.

- Olhe, foi como um chamamento! - remata com um suspiro enquanto lacrimejante, peço-lhe outro balde.

Diz já ter na sua vasta panóplia de lembranças de catástrofes, umas mais sonantes e emblemáticas que outras. Entre elas, destaca a matricula do autocarro que caiu ao rio em Entre-os-Rios e também um arrebite duma barra da ponte, uma bóia do barco Bolama, uma cana de pesca de um pescador que levou um valente "tabefe" de uma onda e alguns pedaços de carros acidentados com que se cruza aqui e ali.

Diz estar a caminhar para velha e pensa fazer de sua casa um museu ou uma espécie de turismo rural, envolvendo dias temáticos.

A sua maior mágoa, é não haver mais ninguém que encare e dê a cara como ela. Também se sente desolada por não haver quem siga esta ocupação que diz ser extremamente cansativa, mas com futuro.

- Somos um país riquíssimo em poucas mas boas tragédias e com um potencial enormíssimo! Tenha como exemplo o estilo arquitectónico do CCB, colocado quase paredes meias com o traço Manuelino dos Jerónimos. Quer maior tragédia que essa!?

- Mas isso não tem muito a ver com sangue ou morbidez desmedida. - disse-lhe entre soluços, agarrado à sanita que anteriormente pertencera a alguém que padecera de ataque cardíaco.

- Tudo cai, meu filho...tudo cai. É só uma questão de tempo.

 

Agora utilizando o humor negro, podia fazer uma piada envolvendo esta senhora, um saco, um pedregulho, um cordel de sisal e o mar.

Mas não o vou fazer. Alexandre Dumas pode ficar irado e acusar-me de plágio...

escrito por centrodasmarradas às 20:10 linque da crónica
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