...a boda e a baptizado, não vás sem ser confirmado...
Assim como gritamos de dor quando pisamos uma pedrinha bicuda ao caminharmos descalços na rua, também o podemos fazer quando ouvimos a palavra "bazuca!" na rádio.
Não há maneira mais engraçada e positiva de começar o dia, do que ver que o país real começa a optar por experimentar a loucura de fazer uma greve ao Sábado. Espero que dê resultado, mas temo que com o tempo a começar a aquecer, os grevistas façam a greve a partir do mesmo local dos que optam pela abstenção num dia de eleições.
Numa altura pouco confortável para muitos países que continuam a praticar a política de proteger os altos quadros e a chamar a si o sacrifício das classes mais baixas, resolvi seguir outra via e quebrar mais uma barreira no jornalismo desinteressado, mas sempre tendencioso.
Meus mui digníssimos fiéis, absorvidos na cativante escrita e no improviso ditado à medida que vou escrevendo linhas até a crónica atingir uma determinada dimensão, é com um enorme orgulho e quase inatingível sentido de dever cumprido, que encontrei e decidi entrevistar o elo-perdido na longa estrutura dos grevistas. Tenho comigo Justino Folgado, grevista de greves.
- Justino Folgado, este é um enorme acontecimento. Agradeço-lhe desde já a oportunidade.
- Ora essa. Como havia uma greve sindical, isso deu-me uma aberta para poder estar aqui a conceder-lhe esta entrevista.
- Muito bem. Começava por lhe perguntar o porquê de optar por uma via como aquela que seguiu? Porquê fazer greve a uma greve?
- Olhe, tudo começou quando não me apeteceu ir votar. O dia estava maçador, cinzento, propício ao suicídio de alguém. Mesmo assim, era necessária uma justificação plausível para o meu ócio. Decidi então seguir a via mais alternativa. Fiz greve ao meu direito cívico.
- E a partir daí?
- Fui até ao centro comercial "anhar" um pouco.
- Não percebeu. Perguntava o que se seguiu para fomentar ainda mais o apelo à sua tendência?
- Ah! A partir daí, uma greve que houvesse, eu estava lá batido! Estive presente nas melhores greves que já se realizaram em Portugal. A melhor para mim foi sem dúvida, a greve por mim realizada em três actos.
- Como assim!? Elabore, por favor.
- Elaborarei. Há uns tempos num espasmo cerebral quase catártico, fiz uma greve faseada, isto é, em três alturas diferentes do ano. É claro que surgiu-me essa ideia dos festivais musicais que têm duas ou três partes, mas porque não fazer o mesmo e invocar uma greve, fazendo dela uma oportunidade para todos!? É que convenhamos, há quem não pode estar presente numa grave por estar a trabalhar!
- E há que criar oportunidades para todos?
- Parece-me óbvio, não acha? Então resolvi começar a convocar uma greve à greve, sempre que há uma greve.
E por outro lado, não sei se já observou, mas é francamente sempre a mesma coisa! Bandeiras em punho, bonés, camisas de manga curta, palavras de ordem bacocas...agora até apitos têm, mas acho que já é o desespero instalado.
- E diga-me em que é diferente a sua greve à greve?
- Eu ofereço bronzeador e praia.
- Bronzeador e praia...
- E cadeiras de praia.
- Mais alguma coisa?
- Chapéus.
- Para a praia?
- Não, para a cabeça...